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terça-feira, 1 de junho de 2021

desgraçados

Trabalhar 

e produzir  

e produzir, produzir.

produzir

enquanto desfalecemos

em vida


trabalhar com meio milhão

de pessoas

mortas

e produzir


vivendo em um país que aposta

na luta contra o que salva

na ciência que comprova

um país que apavora, desespera 

cada minuto de cada hora


e continuar a produzir

e consumir

e digerir a refeição

digerir a solidão


dentro de casa

os sintomas são sequelas

das mazelas

que levaremos

do trauma de

nesse governo desgraçado

seguirmos a viver


seguindo vivendo e tentando

agradecer pela vida

que a tristeza da partida

já abala muitos corações


e que esse presidente desgraçado

saia do seu posto rápido

tamanha quantidade de sangue

em suas diabólicas mãos


que seja denunciado

por toda parte

em cada comunidade

rua, esquina, avenida

nações e planetas 

cientes da besta

e juntos seremos um

por respeito e empatia

de quem tem a consciência

do valor de cada vida


quanto ao governo desgraçado

e ao presidente desgraçado

e suas decisões desgraçadas 

que deus os perdoe

porque eu, ah eu

os quero para sempre

muito além de condenados


sons do eco

 

escrever é esquecer

nos dizia Fernando Pessoa

que da vida que entoa

significados e mágoa

a arte é sempre refúgio


as considerações do coração

considerações da emoção

que são transpostas no texto

em declarada intenção

nos entristecem

atordoam, mistificam

porque o ser humano

é sempre a proa

do barco da completude

da experiência que soa

infinita, efêmera,

eco que para sempre ecoa


pela arte, digo sim

digo existir, digo renascer

é na arte que também me esbaldo

deixando um pouco de mim

em cada amanhecer


ao anoitecer, o coração é só tristeza

porque da vida que se vive

a agonia é dada certeza

as lembranças que vivem

tão profundamente

em cada mente e em cada melodia

nos levam para a imensidão

profundamente desesperando em apatia


e de viver e cantar,

e ouvir, aprender e sonhar

vivo corações partidos

tentando recompor

esse milagre de viver enquanto

há muito

já não sei quem sou