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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Luz na dor

Por que viver é fazer sofrer?
Seguir a doer
Dor em cada conjuntura?
Enquanto vago por esse mundo
No meu corpo vagabundo
Vejo as falhas no contorno
Talvez no centro, por dentro, no todo.

A dor de viver
Supera estar contente
Sorrindo amarelo
Corro maratonas diariamente
Maratonas que tem seu fim
Apenas para darem início
A uma nova e interna forma
De existencial motim.

Viver todos os dias
É de massante agonia
Que não cessa e só agrega
Ainda mais melancolia

Dor vadia, sem sabedoria
Dizem que o sábio não se deixa sofrer
Que é um tipo de escolha
Tão dramático objeto do ser.
Mas como fechar a caixinha
E guardar nela tudo que continha
Esse amargo lado de ver?

Queria eu
Armazenar o pensamento
Purificar o desalento
Esquecer o que eu devia
Talvez até relaxar por, pelo menos,
Que fosse um dia.

                                         Mar ane Rocha.



Jiboia só tem nome porque o homem deu


A vida tem suas formas
Não sei bem o que ficou
Entre os fatos que a história nos mostra
Frente a modernidade posta
Tudo que vimos e que se vê de horror

O que restou
Na sociedade que concebemos
Que do passado ficou?
Nada parece tão presente
Em tudo que, no desenrolar, se instaurou
Lições, experiências de dor
Que se repetem nessa famigerada
História de contínuo rancor.

Tudo muito moderno
O que se fala, como se trabalha
Fica a ganância e guerra de outrora
Para quem desses já provou.

Matar o Homem
Para outros homens
Serve de cobertor
Euforia que persiste
Experiências insistentes de terror

Vemos a guerra a todo tempo
Estampada nas manchetes
Mundo afora, a verdade é a morte.
Se pensamentos habitam o século XXI
Outras nações não contam com mesma sorte  

Vida que segue suas alegorias
Sendo a morte e a exploração
Categorias de mais recorrente
E deplorável tirania

A ganância, o dinheiro
São paralelos da categoria morte
Uma vez que não é com a sorte
Que contam os afortunados.

Residem na exploração
Na servidão de outrem
Para conseguirem o almejado
No mundo material e nada além
Seu status é fruto das coisas que tem
Reprodutor de um sistema
Da desigualdade que o mantém

                                                              Mari R

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Meu doce amargor


Seus cachos negros
Seu lábio quente
Cantoneiros
De uma vida boa
Vida de gente que sente

Vida que foi sugada
Pelos mesmos lábios
Que a atordoam
Ainda que, por aqui,
Continue trovejando
Sinais dessa vida boa

Como se
Enquanto tirasse
Também deixasse
Um pouco do que é paz,
Um pouco do que é ardor.
No peito fica a saudade
O seu olhar, nós embaixo do cobertor.

Me recursaria a seguir te romantizando
Mas romântica que sou
Não consigo deixar de pensar
Se nossos corações juntos estivessem
Nossas mãos, mentes e corpos enlaçados
O que agora perece
Ainda viria a florear?
Se nos espera um jardim,
Como poderia deixar de regar?

A distância sufoca
Impede nosso olho no olho
Os malabares do corpo
A ansiedade pelo broto.
Sufoca até o estorvo
De não nos entendermos
Enquanto aprendemos com isso
Um com o outro.

Distância não cria raiz,
Conexão ou crescimento.
Deixe a semente longe do solo
E logo não terá mais alimento.

O castigo é a distância
E nada se faz perceber,
Tamanha ironia,
Com tamanha presença de ser.
A distância palpável corrói
Não passa despercebida
E é ela mesma
Cada hora e minuto do dia.

Meu amor por você,
Sinto que não é a saudade,
Distância, estrada, contratempo,
Que esmorecerá.
Enquanto sigo te adorando,
Sigo sentindo e com isso, percebo estar.

Sentindo prazer
Que reside na lembrança de você
No que podemos ser
Prazer de alimentar
Mundos inteiros de ilusão.
Porque a nossa comunhão
Também reside em pesar.

Se acredito que queira estar contigo,
Que queira estar comigo,
Logo, logo deixo de achar.
Nossas atitudes nos deixam em lugares que, a princípio,
Não queríamos ou percebemos estar.
Se tudo está certo, logo, logo não o está.

Eu não deixo, você não deixa,
Ninguém deixa, quem sabe quem?
O desejo de te garantir companheirismo
Bençãos cotidianas de energias reais
Está frente as tantas vezes 
Que nos encontramos nos erros mais banais.

Mas pensamentos mesquinhos
Sugam mais a alma que a distância
Que nossa boa aventurança
Resista ao mal estar.
Mal estar de quem acha que sabe,
De quem se deixa levar.
De quem julga e, com isso, 
Pensa apenas em ganhar.
Assumir o controle também se trata de perdoar.

Humanos que somos
Nos encontramos mais que prontos
Para navegar, sim
Mas também para o inevitável naufragar.


                                                        Mar ane.