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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Nada faz mais sentido
Do que o que é seu
Seu sentido
Sua lamúria
Sua alegria, sua conquista
Sua fúria

Podem tentar alcançar
Mas só entrando na pele
Cavando profundo
Pra sentir e provar
Um pouco do seu tentar

Seu mundo de solucionar
O que insiste em identificar, nomear
Sua perspectiva particular
Seu olhar para o pesar
Que às vezes é sonhar

Até os problemas são pessoais
E como deixar de identificar
Os que me são próprios?

Viver só de amor, luar, maré
Do que é bonito, bom, sonhado,
Da única coisa que,
Podemos nos arriscar a dizer,
Todo mundo quer
O que me resta então?
De que me adianta
Tamanha agonia?
Se vivo em minhas esquinas
Praças e avenidas
Só, apenas eu, sozinha 

Contando apenas 
Com minha mensuração 
De quem a nada classifica
E é durante a rotina
Colocada mesmo assim,
E a todo tempo,
Em questão 

Questões alheias
Questões de significados 
De significar 

Seus parâmetros são tão amplos 
Quanto uma humilde sala de estar
2 metros quadrados
Para abrigar, suprimir
Toda uma vida de sonhar 

Vidas que não são minhas
Quem sou eu para orquestrar?
E se penso assim,
por que sigo a terceirizar 
decisões que apenas eu deveria tomar?

O que me resta é existir
E resistir íntegra, viver
Nesse mundo que está ruindo
Em sua forma normativa de não perceber

Quem não percebe a si, 
Não percebe a ninguém mais 
Mas segue na vitória de quem se satisfaz
Condenando gentilezas
Decretando guerra à paz

A vida que eu tenho 
Não é outra que poderia querer
Se ainda posso, é aí que farei
Nada além de mim 
Nunca, jamais poderei

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Permissiva


A vida é muito complicada
Se você deixa, ela nem repara
Mas se você repara
Ela se deixa envolver
É permissiva, entra fundo na ferida
Te liberta enquanto aprisiona
Abismo pasmo da conquista

Enquanto eu estava sofrida
Lendo sobre minha solidão
A ferida viva que ocupava
Inteiramente meu coração
Sequer percebi quando parcialmente resolvida
Percebi que me deixei envolver
E que logo estava numa suspeita satisfeita
De fazer parte da encenação

Ela ainda está aí
Ocupa bem o seu lugar
A encenação é parte da vida
Como é parte da vida também
Uma diferente decisão tomar
Deixar de encenar
Qualquer coisa que te pediram
Viver consigo mesmo
É pensar nas coisas que estão lá fora
E não te tiram mais da mão
De saber seu caminho
Ter sua própria convicção

A vida que te consome
É sempre a vida da solidão
Solidão superficial
De superficialidades sãs
Se digo dessa forma, você de outro jeito
Que seja feito tudo perfeito
Pra se ser como se é

A narrativa é sempre uma
Sua história em cada lacuna
E o que preenche essa lacuna?
E essa história, ela foi sua?
Sem me questionar ou refletir
Não vivi sequer um ano que tive dessa vida
Dessa linda e doce narrativa

Desse suspiro na proa
Mesmo que também a âncora
Com o peso e sem a sombra
Da forma que a vida abençoa
Peso que nunca esperamos
Sombra com que sempre se sonhou
Coexistindo no espaço
Nos tirando do sério
Nos livrando do horror