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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Planeta Melancolia


Nos destroços
Nos buracos
Nos espaços
pequenos
pequenininhos
maiores que eu
Neles desfalecer
Desfalecendo
Já morta
Triunfo da encosta
Tremores e derrotas
Pernas sem forças
Fígado sem sangue
Engano na esquina
Lições não aprendidas
Vazia, vazia, iludida, sem amor
Não há vontade de viver
Vida que não se gosta
Vida em que estou
Vida que consome
Não sei pelo que alguém jamais lutou
Não tem nada mais vivo que o temor
Talvez apenas o esgoto
Fedor, desamor, censura
Ferida aberta na angústia
A tristeza é o resto do todo
A maldição é existir com tanta dor
A maldição é o que mata
Assassina, dolorosa, justa
Encerra o ciclo
Completa o que de logo se esperou
Tão lentamente se desenrolou
Ignorou a dor, me levará na leve brisa
Quando eu implorar por existir
E ironicamente agora que existo
Sigo argumentando sobre sua visita



quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A obsessão está sempre armada


Queria um amor
Desses que tiram o ar
Desses que levam as forças
Pernas bambas a falhar.

Coração batendo forte
Mãos suadas, cabeça a girar
Aquele amor que te leva longe
Sem sair sequer do lugar

Mas já estive lá
E as apontadas fraquezas
Apenas anularam a riqueza
Do que tínhamos a compartilhar.
O fim da beleza
Antecipou o que se mostrou
O inevitável separar

Então agora que eu peça por um amor
Mais leve de levar
Que o coração bata forte e não tire a certeza
De que temos apenas a agregar

Nem te conheço
E já amo profundamente seu pesar
Suas alegrias, alergias, agonias
Cada traço da sua face, seu jeito de andar

Te amo profundamente
Porque sei que vamos nos encontrar
Não sei quando e largo do controle
De sua presença na minha vida estar

O que vai suceder
Pertence a quem possa responder
Destino, acaso, céus
De onde quer que venha você

Te aguardo com calma
Porque a calma é a única realidade
Viável de se viver.
Qualquer amor desesperado
Se confunde logo com o desafeto
De quem apenas quer ao outro
Dominar e pertencer


Mar ane Rocha.



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Curta solidão


Deixar tudo pra trás
Simplesmente permitir que pare 
De fazer morrer.

Perdoar a mim mesma,
Buscar continuar.
Talvez só não terminar tão longe 
De entender o viver e estar.

Afastar qualquer rancor.
Entender o que causa o ardor 
E por que é tão fácil gostar de todos
E tão difícil de sentir, por mim mesma,
Semelhante amor.

Mar ane Rocha.

Romantizar é fugir da realidade (onde compra?)


Não aguento sequer mais um poema entristecido
Mas sendo objeto único da alma:
Essa dor do não concebido,
A caneta em si não manifesta calma.

Poesia única de romance
Escrevi pra quem eu nem devia
Estar ou seguir a romantizar.
As decisões certas que só existem 
Na certeza das decisões erradas,
Tão mais fáceis de tomar.

Os dias têm sido corridos
Se a confusão é o que vamos contabilizar
Encontros tortos, egos elitizados
Peças do xadrez em uma partida falsa
Que começou corrompida
E agora não sabe que outro rumo adota.

Tudo se repete,
Até entre os que se negam a repetir.
Os erros da humanidade
Também existem por aqui.

Famoso, formoso
Como quiser aparecer
Suprema ironia da vida
São os detalhes do coração
Que apenas no final, na morte
Insistem em se fazer compreender.


Mar ane Rocha.

Capitã sem bússola


Viver é não cansar de navegar.
Se por vezes me assusto,
Logo ponho os braços,
Novamente, a comandar.

Esse barco quer ir longe,
Sua capitã é uma pirata.
Gosta de calor, batalha e prata.

Viajante dos mares obscuros, 
Sobrevivente das tempestades.
Olhar taciturno de quem, há muito,
Também deixou pelo mundo irmandades.

Não nego a dor da aventura
O moralismo na censura
Desse questionado caminhar

Ser resistência
É manter na consciência
O que verdadeiramente importa.
A coisa primeira,
Primário sufoco,
De quem sufoca.


Mar ane Rocha.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Luz na dor

Por que viver é fazer sofrer?
Seguir a doer
Dor em cada conjuntura?
Enquanto vago por esse mundo
No meu corpo vagabundo
Vejo as falhas no contorno
Talvez no centro, por dentro, no todo.

A dor de viver
Supera estar contente
Sorrindo amarelo
Corro maratonas diariamente
Maratonas que tem seu fim
Apenas para darem início
A uma nova e interna forma
De existencial motim.

Viver todos os dias
É de massante agonia
Que não cessa e só agrega
Ainda mais melancolia

Dor vadia, sem sabedoria
Dizem que o sábio não se deixa sofrer
Que é um tipo de escolha
Tão dramático objeto do ser.
Mas como fechar a caixinha
E guardar nela tudo que continha
Esse amargo lado de ver?

Queria eu
Armazenar o pensamento
Purificar o desalento
Esquecer o que eu devia
Talvez até relaxar por, pelo menos,
Que fosse um dia.

                                         Mar ane Rocha.



Jiboia só tem nome porque o homem deu


A vida tem suas formas
Não sei bem o que ficou
Entre os fatos que a história nos mostra
Frente a modernidade posta
Tudo que vimos e que se vê de horror

O que restou
Na sociedade que concebemos
Que do passado ficou?
Nada parece tão presente
Em tudo que, no desenrolar, se instaurou
Lições, experiências de dor
Que se repetem nessa famigerada
História de contínuo rancor.

Tudo muito moderno
O que se fala, como se trabalha
Fica a ganância e guerra de outrora
Para quem desses já provou.

Matar o Homem
Para outros homens
Serve de cobertor
Euforia que persiste
Experiências insistentes de terror

Vemos a guerra a todo tempo
Estampada nas manchetes
Mundo afora, a verdade é a morte.
Se pensamentos habitam o século XXI
Outras nações não contam com mesma sorte  

Vida que segue suas alegorias
Sendo a morte e a exploração
Categorias de mais recorrente
E deplorável tirania

A ganância, o dinheiro
São paralelos da categoria morte
Uma vez que não é com a sorte
Que contam os afortunados.

Residem na exploração
Na servidão de outrem
Para conseguirem o almejado
No mundo material e nada além
Seu status é fruto das coisas que tem
Reprodutor de um sistema
Da desigualdade que o mantém

                                                              Mari R

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Meu doce amargor


Seus cachos negros
Seu lábio quente
Cantoneiros
De uma vida boa
Vida de gente que sente

Vida que foi sugada
Pelos mesmos lábios
Que a atordoam
Ainda que, por aqui,
Continue trovejando
Sinais dessa vida boa

Como se
Enquanto tirasse
Também deixasse
Um pouco do que é paz,
Um pouco do que é ardor.
No peito fica a saudade
O seu olhar, nós embaixo do cobertor.

Me recursaria a seguir te romantizando
Mas romântica que sou
Não consigo deixar de pensar
Se nossos corações juntos estivessem
Nossas mãos, mentes e corpos enlaçados
O que agora perece
Ainda viria a florear?
Se nos espera um jardim,
Como poderia deixar de regar?

A distância sufoca
Impede nosso olho no olho
Os malabares do corpo
A ansiedade pelo broto.
Sufoca até o estorvo
De não nos entendermos
Enquanto aprendemos com isso
Um com o outro.

Distância não cria raiz,
Conexão ou crescimento.
Deixe a semente longe do solo
E logo não terá mais alimento.

O castigo é a distância
E nada se faz perceber,
Tamanha ironia,
Com tamanha presença de ser.
A distância palpável corrói
Não passa despercebida
E é ela mesma
Cada hora e minuto do dia.

Meu amor por você,
Sinto que não é a saudade,
Distância, estrada, contratempo,
Que esmorecerá.
Enquanto sigo te adorando,
Sigo sentindo e com isso, percebo estar.

Sentindo prazer
Que reside na lembrança de você
No que podemos ser
Prazer de alimentar
Mundos inteiros de ilusão.
Porque a nossa comunhão
Também reside em pesar.

Se acredito que queira estar contigo,
Que queira estar comigo,
Logo, logo deixo de achar.
Nossas atitudes nos deixam em lugares que, a princípio,
Não queríamos ou percebemos estar.
Se tudo está certo, logo, logo não o está.

Eu não deixo, você não deixa,
Ninguém deixa, quem sabe quem?
O desejo de te garantir companheirismo
Bençãos cotidianas de energias reais
Está frente as tantas vezes 
Que nos encontramos nos erros mais banais.

Mas pensamentos mesquinhos
Sugam mais a alma que a distância
Que nossa boa aventurança
Resista ao mal estar.
Mal estar de quem acha que sabe,
De quem se deixa levar.
De quem julga e, com isso, 
Pensa apenas em ganhar.
Assumir o controle também se trata de perdoar.

Humanos que somos
Nos encontramos mais que prontos
Para navegar, sim
Mas também para o inevitável naufragar.


                                                        Mar ane.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

repúdio poético

'jamais entraria para a política' ex-juíz, atual ministro

vendo o ministro da justiça
na CCJ a se explicar
mas ele não parece tão ciente
dos crimes a justificar

tido como ídolo nacional
muitos senadores presentes
gostariam que o mesmo
nem estivesse por lá
falam de malas de dinheiro, corrupção
como se o ministro fosse vítima
personagem inocente
dentro de uma grande conspiração

a grandeza do humano
se confunde no caminhar
associam virtude à ídolos políticos
envolvidos em evidente ilicitude
que seguem a nos ludibriar

enquanto tramam nos bastidores
a vida de milhões de eleitores
sabem o discurso a adotar

sua culpa não cabe tanto
quanto a presunção
de no 'lado certo' estar
mas a história é ciência
não perdoa as falsidades
nem qualquer inconsistência
retrata a verdade
do 'heróico caminhar'

efêmero é o poder
eterna é a história
não serão esquecidos
em sua intencionada trajetória.

terça-feira, 18 de junho de 2019

comum é todo dia


vivendo de adiar
prazos
até a própria aspiração
soa como poema de deprimido
mas é apenas a contramão


vida curta
há muito que chama as vias 
para a auto-atenção 
se não agora, quando?

diz essa pobre intenção 
de estar pronto
quando se apresenta a questão

gostaria que não fosse o mundo
a me dizer
as coisas que eu deveria ser
ou tudo que preciso saber

mas já me disseram
o que mais posso fazer?
se esse rodopiar de vidas já assumiu
a verdade a prevalecer 

pois que não prevaleça a verdade
que prevaleçam verdades
frente a complexidade
que há tanto se apresentou

se a vida é para todos 
e pertence a cada um
que seja particular então
esse generalizado

entendimento de comum



                                                     poema autoral.

El mundo

vai o mundo girando
em volta de si mesmo
coisa tal que me recuso
a repetir do mesmo jeito

mas o mundo tem propósitos
maiores que meu ego
enquanto lhe venero
contemplo minha pequenez

viver à la mundo
é um projeto de si mesmo
enquanto o mundo não espera
sequer que se dê jeito

dizem sim
que o propósito dessa vida
é viver em completa harmonia
com o coração do próprio peito

mas a harmonia
não quer se fazer perceber
reside dentro de nós
seu único projeto é fazer valer

 na confusão
entre harmonia e ganância
ganha a sociedade meritocrática
que associa seus propósitos
à boa aventurança

                                                 poema autoral.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

observância do dia

o dia raiou
subiu a colina
fez presença
esquentou

amornou a cozinha
alimentou a quem devia
cumpriu sua rotina
já até se afugentou

levantei por essa hora
há tempos que o sol
com todas as forças envolvidas
despertou
e minha cama remexida
cortina que há muito se fechou

me levanto mais um dia
em plena agonia
mais um dia de solidão
de objetivos
planos e compromissos
tudo que se agendou
componentes da equação

me levantei para o dia
e as fagulhas e fogueiras
se revezam em turnos
dentro dessa persona lareira

um dia em que
entre tanto furor
minhas próprias forças envolvidas
mostram sua cor

entre tons quentes e frios
explano todo esse ardor
a alma cansada
uma força e outra que restou

amanhã é outro dia
de dizer
que o sol por sua conta
já se fez aparecer

quanto à minha pessoa
viva nesse exato instante
vivo com a morte do futuro distante
essa como única garantia

acordando e levantando
eis que sigo andando
tentando fazer valer o dia

                                                       Poema autoral.

domingo, 16 de junho de 2019

Mari Melodia

uma vida de emoção
tem a música como sintonia
quase que o mesmo rádio
todo santo dia

mas que santo dia
de estar conectado
com a melodia
entristecida, melancólica
letras num turbilhão
cumprem seu propósito
ao partir meu coração

em meio a multidão
eu e o som do violão
que toca, rompe
toda essa declarada invasão

uma vida de emoção
não existe longe da melodia
raíz crescente
ela é o próprio raiar do dia

de encontro com a razão
não há nada que não toque
os sons dessa bela canção

                                                      Poema autoral.

Saideira Colapsal

Hora de expressar os sentimentos
Aventurar-me na exposição
Hora que eu me dei
E que ninguém me tira da mão

De minha parte
Não posso admitir meu lugar
Minha condição, minha solidão
Me darei a hora que eu precisar
Sem a ninguém requisitar
E mesmo assim receber dezenas 
do maldito parecer: 
opinião alheia de prontidão

Fera ferida, sou bicha perseguida
O mundo não perdoa
Nem a você, nem mais ninguém
As regras e conceitos quanto ao termo
Foram modificadas a tempo de não haver erro
Pra que triunfasse quem tinha mais
E no fim era dinheiro

Dia derradeiro, de devaneio
Me recurso a divagar
O mundo corre e hoje é tempo
De chegar sim
No seu próprio “Lá”

                                                                             Poema autoral.

sábado, 15 de junho de 2019

The Endless Enigma

O Enigma Sem Fim - Salvador Dalí (1938)


Acordei
sentindo tanto quanto devia
sabendo menos que podia
mente imersa na filosofia
e o coração a navegar

E que beleza tem os filósofos
há tanto nos primórdios
que o tempo não apagou
e a memória insiste em reavivar

Mas eles me dizem
que não sei filosofar
pois que um dia acordem então
sentindo
todas as coisas
que eu não consigo falar.

                                                                    Poema autoral.

Você está bem (.)(?)

você está bem
está à mesa 
tem saúde, ar nos pulmões, 
sangue nas veias 
tem feijão, purê 
e talvez até um pouco
do que mais quiser comer

Eis que insisto
por mais essa vez
no meu pesado coração
coração de emoção
que arrasta e fere
no asfalto, no que é sério
no que é bruto, no que é térreo  

esse coração tem cores 
que o mundo ainda não contemplou 
enquanto sigo firme 
logo logo desabou 

desabei nas alegorias 
nos clichês de alegria 
na vida vadia 
no que desandou 

danada agonia
que vinda, acaba que fica 
na ossada
no que restou 

esse não é um poema sobre mudança de humor 
é uma leve pena de andorinha 
um vislumbre 
de toda essa dor

mesmo que o mundo não parasse agora 
ainda me perguntaria (e pergunto)
o que restou  

                                                                       Poema autoral.