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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Aninha e Suas Pedras

Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras
E construindo novos poemas. 
Recria tua vida, sempre, sempre. 
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. 
Faz da tua vida mesquinha 
um poema. 
E viverás no coração dos jovens 
E na memória das gerações que hão de vir. 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos. 
Toma a tua parte 
Vem a estas páginas 
E não entraves seu uso 
Aos que tem sede. 

                                                        Cora Coralina

domingo, 29 de março de 2020

E vai-se o tempo
Como uma pluma
Se desfaz no vento..
Sua persistência que habita
Apenas a memória
Que dele se tem.

Esse passado que nos largou
Apenas a mão de transformá-lo,
Não faz permanecer a lembrança que se quer,
Ou apagar o que faz envergonhar-nos.

Mas transformar o passado
É apagar também a lição.
Maldita fonte de aprendizado
São todos os erros de ontem,
De amanhã, de antemão.

Vai-se o tempo
Sem nos dizer
Quão rápido há de passar
O tempo que temos, ou quanto
Ainda se há de perder.

A virtude de entender o tempo
É perceber o agora,
Momento de única palpável certeza
Em toda nossa trajetória.

Os pássaros cantam hoje,
Cantarolaram ontem,
Provável que venham
E cantem amanhã.

Mas para ouvi-los,
E aos seus cantos inebriantes
Delicados, nunca sombrios
E de uma felicidade constante,
É preciso preparar os ouvidos
Ouvindo o cantar de agora
Sem dele apenas lembrá-lo,
Ou aguardá-lo na aurora.

Os pássaros existem nesse mundo,
Nesse tempo, nessa brecha,
Não onde ou quando lhe calhe esperar.
Esperar é escapar da mão a flecha.

Deixo esse ode ao presente
Para que nos livremos
Do sofrimento.
Para os que sofrem
Pela fluidez do tempo.

Tão bom é viver
Sabendo o tempo que se tem.
Esse tempo que é o agora,
Nunca além do que temos,
Nunca depois do tempo.

Mar Ane.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Nada faz mais sentido
Do que o que é seu
Seu sentido
Sua lamúria
Sua alegria, sua conquista
Sua fúria

Podem tentar alcançar
Mas só entrando na pele
Cavando profundo
Pra sentir e provar
Um pouco do seu tentar

Seu mundo de solucionar
O que insiste em identificar, nomear
Sua perspectiva particular
Seu olhar para o pesar
Que às vezes é sonhar

Até os problemas são pessoais
E como deixar de identificar
Os que me são próprios?

Viver só de amor, luar, maré
Do que é bonito, bom, sonhado,
Da única coisa que,
Podemos nos arriscar a dizer,
Todo mundo quer
O que me resta então?
De que me adianta
Tamanha agonia?
Se vivo em minhas esquinas
Praças e avenidas
Só, apenas eu, sozinha 

Contando apenas 
Com minha mensuração 
De quem a nada classifica
E é durante a rotina
Colocada mesmo assim,
E a todo tempo,
Em questão 

Questões alheias
Questões de significados 
De significar 

Seus parâmetros são tão amplos 
Quanto uma humilde sala de estar
2 metros quadrados
Para abrigar, suprimir
Toda uma vida de sonhar 

Vidas que não são minhas
Quem sou eu para orquestrar?
E se penso assim,
por que sigo a terceirizar 
decisões que apenas eu deveria tomar?

O que me resta é existir
E resistir íntegra, viver
Nesse mundo que está ruindo
Em sua forma normativa de não perceber

Quem não percebe a si, 
Não percebe a ninguém mais 
Mas segue na vitória de quem se satisfaz
Condenando gentilezas
Decretando guerra à paz

A vida que eu tenho 
Não é outra que poderia querer
Se ainda posso, é aí que farei
Nada além de mim 
Nunca, jamais poderei

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Permissiva


A vida é muito complicada
Se você deixa, ela nem repara
Mas se você repara
Ela se deixa envolver
É permissiva, entra fundo na ferida
Te liberta enquanto aprisiona
Abismo pasmo da conquista

Enquanto eu estava sofrida
Lendo sobre minha solidão
A ferida viva que ocupava
Inteiramente meu coração
Sequer percebi quando parcialmente resolvida
Percebi que me deixei envolver
E que logo estava numa suspeita satisfeita
De fazer parte da encenação

Ela ainda está aí
Ocupa bem o seu lugar
A encenação é parte da vida
Como é parte da vida também
Uma diferente decisão tomar
Deixar de encenar
Qualquer coisa que te pediram
Viver consigo mesmo
É pensar nas coisas que estão lá fora
E não te tiram mais da mão
De saber seu caminho
Ter sua própria convicção

A vida que te consome
É sempre a vida da solidão
Solidão superficial
De superficialidades sãs
Se digo dessa forma, você de outro jeito
Que seja feito tudo perfeito
Pra se ser como se é

A narrativa é sempre uma
Sua história em cada lacuna
E o que preenche essa lacuna?
E essa história, ela foi sua?
Sem me questionar ou refletir
Não vivi sequer um ano que tive dessa vida
Dessa linda e doce narrativa

Desse suspiro na proa
Mesmo que também a âncora
Com o peso e sem a sombra
Da forma que a vida abençoa
Peso que nunca esperamos
Sombra com que sempre se sonhou
Coexistindo no espaço
Nos tirando do sério
Nos livrando do horror