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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Meu doce amargor


Seus cachos negros
Seu lábio quente
Cantoneiros
De uma vida boa
Vida de gente que sente

Vida que foi sugada
Pelos mesmos lábios
Que a atordoam
Ainda que, por aqui,
Continue trovejando
Sinais dessa vida boa

Como se
Enquanto tirasse
Também deixasse
Um pouco do que é paz,
Um pouco do que é ardor.
No peito fica a saudade
O seu olhar, nós embaixo do cobertor.

Me recursaria a seguir te romantizando
Mas romântica que sou
Não consigo deixar de pensar
Se nossos corações juntos estivessem
Nossas mãos, mentes e corpos enlaçados
O que agora perece
Ainda viria a florear?
Se nos espera um jardim,
Como poderia deixar de regar?

A distância sufoca
Impede nosso olho no olho
Os malabares do corpo
A ansiedade pelo broto.
Sufoca até o estorvo
De não nos entendermos
Enquanto aprendemos com isso
Um com o outro.

Distância não cria raiz,
Conexão ou crescimento.
Deixe a semente longe do solo
E logo não terá mais alimento.

O castigo é a distância
E nada se faz perceber,
Tamanha ironia,
Com tamanha presença de ser.
A distância palpável corrói
Não passa despercebida
E é ela mesma
Cada hora e minuto do dia.

Meu amor por você,
Sinto que não é a saudade,
Distância, estrada, contratempo,
Que esmorecerá.
Enquanto sigo te adorando,
Sigo sentindo e com isso, percebo estar.

Sentindo prazer
Que reside na lembrança de você
No que podemos ser
Prazer de alimentar
Mundos inteiros de ilusão.
Porque a nossa comunhão
Também reside em pesar.

Se acredito que queira estar contigo,
Que queira estar comigo,
Logo, logo deixo de achar.
Nossas atitudes nos deixam em lugares que, a princípio,
Não queríamos ou percebemos estar.
Se tudo está certo, logo, logo não o está.

Eu não deixo, você não deixa,
Ninguém deixa, quem sabe quem?
O desejo de te garantir companheirismo
Bençãos cotidianas de energias reais
Está frente as tantas vezes 
Que nos encontramos nos erros mais banais.

Mas pensamentos mesquinhos
Sugam mais a alma que a distância
Que nossa boa aventurança
Resista ao mal estar.
Mal estar de quem acha que sabe,
De quem se deixa levar.
De quem julga e, com isso, 
Pensa apenas em ganhar.
Assumir o controle também se trata de perdoar.

Humanos que somos
Nos encontramos mais que prontos
Para navegar, sim
Mas também para o inevitável naufragar.


                                                        Mar ane.

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