A vida é muito complicada
Se você deixa, ela nem repara
Mas se você repara
Ela se deixa envolver
É permissiva, entra fundo na ferida
Te liberta enquanto aprisiona
Abismo pasmo da conquista
Enquanto eu estava sofrida
Lendo sobre minha solidão
A ferida viva que ocupava
Inteiramente meu coração
Sequer percebi quando parcialmente
resolvida
Percebi que me deixei envolver
E que logo estava numa suspeita
satisfeita
De fazer parte da encenação
Ela ainda está aí
Ocupa bem o seu lugar
A encenação é parte da vida
Como é parte da vida também
Uma diferente decisão tomar
Deixar de encenar
Qualquer coisa que te pediram
Viver consigo mesmo
É pensar nas coisas que estão lá
fora
E não te tiram mais da mão
De saber seu caminho
Ter sua própria
convicção
A vida que te consome
É sempre a vida da solidão
Solidão superficial
De superficialidades sãs
Se digo dessa forma, você de outro
jeito
Que seja feito tudo perfeito
Pra se ser como se é
A narrativa é sempre uma
Sua história em cada lacuna
E o que preenche essa lacuna?
E essa história, ela foi sua?
Sem me questionar ou refletir
Não vivi sequer um ano que tive dessa
vida
Dessa linda e doce narrativa
Desse suspiro na proa
Mesmo que também a âncora
Com o peso e sem a sombra
Da forma que a vida abençoa
Peso que nunca esperamos
Sombra com que sempre se sonhou
Coexistindo no espaço
Nos tirando do sério
Nos livrando do horror
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